Ok. Preciso admitir que preciso conversar comigo mesma sobre
isso. Muitas redundâncias, eu sei. Eu não estou preocupada com a escrita
correta das coisas, eu só quero me aliviar um pouco do meu desespero, por que é
basicamente isso que eu estou sentindo me impulsionar a escrever sobre mim,
como se já não bastasse eu participar da minha própria cabeça. Não é auto ajuda
pra você, sou eu dando um tapinha nas minhas costas pra todo mundo ver.
Eu também precisaria usar clichês pra descrever a minha
situação, como “beco sem saída” ou “não ter pra onde correr”, mas a verdade é
que não tem motivos pra correr. Apegue-se em Deus, vocês provavelmente me
responderiam. Citariam salmos, combinariam um dia pra eu ir no culto, no grupo
ou na missa... Mas eu não vou, eu nunca vou e provavelmente nem irei, por que
eu já fui. Por parte de mãe, conheci o espiritismo, por parte de pai, conheci o
catolicismo. Então, digamos que eu convivo com Deus e o Diabo, intensamente, um
sobre o outro.
A minha história sempre foi a história dos outros, na
verdade. Eu não fiz grandes coisas da vida, eu não tenho nenhuma habilidade
especial, não sei tocar ou cantar, desenhar, enfim... Eu não posso simplesmente
“largar tudo” e fazer o que “toca meu coração” por que meu coração é justamente
o que é tocado pela vida das outras pessoas. Não sei se deu pra entender: eu
sou a trouxa que dá passagem pra absolutamente qualquer coisa se manifestar na
minha vida e lido com isso geralmente como as vacas hindus amplamente citadas
na literatura. A paciência de Jó, como queiram.
Paralelo a isso, além de pautar toda e qualquer coisa dentro
da minha vida em COMO FULANO DE TAL VAI SE SENTIR/REAGIR, eu sempre gostei
muito de estudar, de ler. Eu leio rótulos, leio revistas, leio livros, amo
estudar, amo entender, amo descobrir. E talvez, isso seja a única coisa que eu
sou, uma eterna aprendiz. Eu achava que eu ia ganhar o mundo assim. Eu sonhava
com ser conhecida pelo meu conhecimento.
Passava minhas noites em claro ouvindo música, entupia a
memória do computador de coisas. Li livros e livros na telinha do meu mp4,
fruto da venda dos meus livros do ano anterior da escola. Assistia filmes de
terror com medo e filmes cult sem entender uma grama, depois lia review na
internet pra confirmar que eu tinha entendido certo. Organizava tudo direitinho
e juntava dinheiro pra comprar até o meu shampoo. Doía na alma gastar. Filha de
professor. Filha de administradora.
Aprendi coisas ridículas sobre cabelo, aprendi sobre os
países que eu sonhava visitar. Aprendi a gostar de tablets, aprendi a me
esconder, aprendi a negar meus gostos musicais também. Decidi que era meio
ofensivo sair com uma camisa do Metallica pra ver a família católica. Aprendi a
lidar com bebidas alcoolicas destruindo meu ambiente familiar, aprendi a me reerguer
das constantes decepções sobre o esforço que eu fazia pra acabar com isso.
Aprendi a correr e me esconder. Aprendi a não guardar mágoas e aprendi a
engolir o choro enquanto eu ouvia coisas que não era pra ouvir, mas que deveria
sim. Eu sempre tomei tudo que eu sabia como a minha responsabilidade e sonhei
em me livrar das coisas ruins.
Foi assim que eu descobri aos 16 anos, por exemplo, que
existe nos EUA um tipo de band-aid como uma cola roll-on, para proteger seus
pés daquelas sapatilhas assassinas que comem seu calcanhar. E eu também aprendi
a resolver esse vazio na minha vida, agora eu só uso havaiana.
Eu acreditava em fadas (não a tinkerbell) até menos de 2
anos atrás, então vocês podem imaginar o naipe do conhecimento que eu consumi
durante meus pesados 20 anos. Pesados porque com 13, eu já me sentia com 20.
Hoje eu tenho 20 e me sinto como se ainda tivesse os 13, só que cansada,
estafada.
Pois bem que nisso tudo, minha crença se perdeu. Talvez – só
talvez – eu tenha parado pra perceber
que eu nunca acreditei em Deus. E agora, só agora, que a minha cabeça não tá
mais aguentando o “p” de uma pena, eu tenha me dado conta de que mesmo estando “lá”
pra todo mundo do mundo, eu só acreditei no que EU podia fazer. Eu.
É um esforço enorme escrever isso pra mim mesma. Enorme. Meu
maior medo é ser ingrata ou egoísta. Eu tenho pesadelos sobre isso, muitos, mas
chegou a hora de admitir que eu PRECISO de uma boa dose de egoísmo. De me encarar
na frente do espelho, bater no peito dessa vez forçosamente orgulhosa e me
fazer acreditar que eu fiz por que podia, que eu fiz por que eu sabia do que
era capaz.
Eu já confiei muito em Deus, mas são as minhas mãos que eu
vejo, são meus pés que doem, é meu corpo que pesa. E agora, SÓ AGORA que está
tudo desmoronando e eu não aguento mais, é que eu entendi que tá pesado por que
não estava em Deus, estava comigo, dentro de mim.
A minha vida no momento encontra-se num ponto absurdo pra
mim. Igual de muita gente, melhor que da maioria e definitivamente incomparável
com a vida de quem tem um puto no bolso, de quem nem sabe quanto vem a conta da
luz que deixa acesa, enquanto come o que tem na mesa (que por acaso também não
sabe nada sobre, só brota). A crise tá comendo meu sistema anti bombas.
Nunca fui uma pessoa fácil, eu admito. Eu sou grossa, sadicamente
irônica, eu reclamo DEMAIS e eu não ligo muito pra manter algumas relações em
que eu simplesmente assumo que a pessoa TEM QUE SABER QUE EU A AMO e foda-se.
Também falo bastante palavrão.
Eu dei um trabalho
quando era pré-adolescente, por que era independente demais. Em compensação,
fui uma adolescente exemplar, nunca dava trabalho, por que era independente
demais. Agora, eu sou uma jovem adulta. Eu esperei tanto por isso... Ah, como
eu esperei! Eu ficava horas na janela sonhando que eu ia ser maior de idade,
que eu ia saber de tudo que eu estava fazendo, que eu ia ser a pessoa mais bem
resolvida.
Sabe o que eu planejei pra essa época da minha vida? Eu
planejei estar feliz, independente. Sonhava em morar com minha melhor amiga,
sonhava em ter um carro e estar dirigindo por ai. Não menciono a parte amorosa,
porque logo eu que achei que ia morrer sozinha, namoro há 5 anos uma pessoa
incrível e que eu admiro um pouco mais todo vez que eu leio “bom dia” no meu
celular. Eu sinceramente não consigo dizer “bom dia”. (Eu te amo.)
Eu me botava pra dormir, imaginando que no ano de 2017, aos
20 anos (o que na minha cabeça, infelizmente, é quase como ter 89 e umas 4
doenças terminais), eu ia estar completamente independente. Independente a
ponto de ajudar. Ajudar, ajudar, ajudar e ajudar. Ajudar mais, ajudar sempre,
dar uma força.
Eu estou sentada no mesmo quarto, numa poltrona inflável,
pensando o que foi que eu fiz. Se fui eu quem fiz isso mesmo. Mas não adianta,
eu vou me culpar de toda forma. Eu tenho que me culpar, porque eu não acredito
em Deus.
Faço psicologia, por incrível que pareça. O meu primeiro
semestre foi o último de 2016. Lá eu conheci somente pessoas maravilhosas,
algumas que eu já amo de verdade, outras que eu aprecio a companhia, exceto por
uma professora que eu nem chego a odiar, eu só não aguentava assistir aula.
Mas, se eu aguentasse uma hora, eu ia assistir uma outra aula que em muitos
aspectos mudou meu jeito de ver a vida (e inclusive arriscando os próximos 6
meses pra poder repetir a dose, fazer o que, eu não possuo cerimônias que me
proíbam de me viciar em nada).
Lá eu descobri que as pessoas sonham alto. Que é normal você
desejar as coisas intensamente. Eu andei tão preocupada pensando em como
arranjar o maldito dinheiro pra ir na aula do dia seguinte, passei tanto tempo
cozinhando meus cupcakes azuis pra vender e poder ter o maldito dinheiro pra ir
na aula todo dia, que eu esqueci de sonhar, olha que clichê bem encaixado! Eu
só conseguia pensar “Mas que merda, será possível que é TODO MUNDO FELIZ? Eu tô
preferindo acreditar que só tem bobo alegre.”
Um dia, numa simples conversa, me perguntaram qual era meu
maior sonho. Eu tristemente só consegui pensar em dinheiro. Porque no final de
semana, eu estava com vontade de relaxar. Depois disso, eu comecei a comprar
qualquer coisa que me desse vontade, MAS... Obviamente agora, eu estou
lembrando de cada centavo que gastei, tal qual um Tio Patinhas falido, pensando
que eu poderia ter comprado os ovos que iriam me faltar hoje, o arroz que acaba
essa semana, ou o garrafão de água, que acabou semana passada. A crise tá
acabando comigo.
Eu escrevi isso tudo com algumas intenções... Eu esperava
sonhar de novo, esperava acreditar de novo, mas eu não consigo.
Será que eu sou uma má pessoa?





0 comentários:
Postar um comentário