Tudo sobre a tal da serotonina

quarta-feira, janeiro 25, 2017


Tripas.

          Ok. Preciso admitir que preciso conversar comigo mesma sobre isso. Muitas redundâncias, eu sei. Eu não estou preocupada com a escrita correta das coisas, eu só quero me aliviar um pouco do meu desespero, por que é basicamente isso que eu estou sentindo me impulsionar a escrever sobre mim, como se já não bastasse eu participar da minha própria cabeça. Não é auto ajuda pra você, sou eu dando um tapinha nas minhas costas pra todo mundo ver.

          Eu também precisaria usar clichês pra descrever a minha situação, como “beco sem saída” ou “não ter pra onde correr”, mas a verdade é que não tem motivos pra correr. Apegue-se em Deus, vocês provavelmente me responderiam. Citariam salmos, combinariam um dia pra eu ir no culto, no grupo ou na missa... Mas eu não vou, eu nunca vou e provavelmente nem irei, por que eu já fui. Por parte de mãe, conheci o espiritismo, por parte de pai, conheci o catolicismo. Então, digamos que eu convivo com Deus e o Diabo, intensamente, um sobre o outro.

          A minha história sempre foi a história dos outros, na verdade. Eu não fiz grandes coisas da vida, eu não tenho nenhuma habilidade especial, não sei tocar ou cantar, desenhar, enfim... Eu não posso simplesmente “largar tudo” e fazer o que “toca meu coração” por que meu coração é justamente o que é tocado pela vida das outras pessoas. Não sei se deu pra entender: eu sou a trouxa que dá passagem pra absolutamente qualquer coisa se manifestar na minha vida e lido com isso geralmente como as vacas hindus amplamente citadas na literatura. A paciência de Jó, como queiram.

          Paralelo a isso, além de pautar toda e qualquer coisa dentro da minha vida em COMO FULANO DE TAL VAI SE SENTIR/REAGIR, eu sempre gostei muito de estudar, de ler. Eu leio rótulos, leio revistas, leio livros, amo estudar, amo entender, amo descobrir. E talvez, isso seja a única coisa que eu sou, uma eterna aprendiz. Eu achava que eu ia ganhar o mundo assim. Eu sonhava com  ser conhecida pelo meu conhecimento.

          Passava minhas noites em claro ouvindo música, entupia a memória do computador de coisas. Li livros e livros na telinha do meu mp4, fruto da venda dos meus livros do ano anterior da escola. Assistia filmes de terror com medo e filmes cult sem entender uma grama, depois lia review na internet pra confirmar que eu tinha entendido certo. Organizava tudo direitinho e juntava dinheiro pra comprar até o meu shampoo. Doía na alma gastar. Filha de professor. Filha de administradora.

          Aprendi coisas ridículas sobre cabelo, aprendi sobre os países que eu sonhava visitar. Aprendi a gostar de tablets, aprendi a me esconder, aprendi a negar meus gostos musicais também. Decidi que era meio ofensivo sair com uma camisa do Metallica pra ver a família católica. Aprendi a lidar com bebidas alcoolicas destruindo meu ambiente familiar, aprendi a me reerguer das constantes decepções sobre o esforço que eu fazia pra acabar com isso. Aprendi a correr e me esconder. Aprendi a não guardar mágoas e aprendi a engolir o choro enquanto eu ouvia coisas que não era pra ouvir, mas que deveria sim. Eu sempre tomei tudo que eu sabia como a minha responsabilidade e sonhei em me livrar das coisas ruins.

          Foi assim que eu descobri aos 16 anos, por exemplo, que existe nos EUA um tipo de band-aid como uma cola roll-on, para proteger seus pés daquelas sapatilhas assassinas que comem seu calcanhar. E eu também aprendi a resolver esse vazio na minha vida, agora eu só uso havaiana.

          Eu acreditava em fadas (não a tinkerbell) até menos de 2 anos atrás, então vocês podem imaginar o naipe do conhecimento que eu consumi durante meus pesados 20 anos. Pesados porque com 13, eu já me sentia com 20. Hoje eu tenho 20 e me sinto como se ainda tivesse os 13, só que cansada, estafada.
Pois bem que nisso tudo, minha crença se perdeu. Talvez – só talvez –  eu tenha parado pra perceber que eu nunca acreditei em Deus. E agora, só agora, que a minha cabeça não tá mais aguentando o “p” de uma pena, eu tenha me dado conta de que mesmo estando “lá” pra todo mundo do mundo, eu só acreditei no que EU podia fazer. Eu.

          É um esforço enorme escrever isso pra mim mesma. Enorme. Meu maior medo é ser ingrata ou egoísta. Eu tenho pesadelos sobre isso, muitos, mas chegou a hora de admitir que eu PRECISO de uma boa dose de egoísmo. De me encarar na frente do espelho, bater no peito dessa vez forçosamente orgulhosa e me fazer acreditar que eu fiz por que podia, que eu fiz por que eu sabia do que era capaz.
Eu já confiei muito em Deus, mas são as minhas mãos que eu vejo, são meus pés que doem, é meu corpo que pesa. E agora, SÓ AGORA que está tudo desmoronando e eu não aguento mais, é que eu entendi que tá pesado por que não estava em Deus, estava comigo, dentro de mim.

          A minha vida no momento encontra-se num ponto absurdo pra mim. Igual de muita gente, melhor que da maioria e definitivamente incomparável com a vida de quem tem um puto no bolso, de quem nem sabe quanto vem a conta da luz que deixa acesa, enquanto come o que tem na mesa (que por acaso também não sabe nada sobre, só brota). A crise tá comendo meu sistema anti bombas.

          Nunca fui uma pessoa fácil, eu admito. Eu sou grossa, sadicamente irônica, eu reclamo DEMAIS e eu não ligo muito pra manter algumas relações em que eu simplesmente assumo que a pessoa TEM QUE SABER QUE EU A AMO e foda-se. Também falo bastante palavrão.

           Eu dei um trabalho quando era pré-adolescente, por que era independente demais. Em compensação, fui uma adolescente exemplar, nunca dava trabalho, por que era independente demais. Agora, eu sou uma jovem adulta. Eu esperei tanto por isso... Ah, como eu esperei! Eu ficava horas na janela sonhando que eu ia ser maior de idade, que eu ia saber de tudo que eu estava fazendo, que eu ia ser a pessoa mais bem resolvida.

          Sabe o que eu planejei pra essa época da minha vida? Eu planejei estar feliz, independente. Sonhava em morar com minha melhor amiga, sonhava em ter um carro e estar dirigindo por ai. Não menciono a parte amorosa, porque logo eu que achei que ia morrer sozinha, namoro há 5 anos uma pessoa incrível e que eu admiro um pouco mais todo vez que eu leio “bom dia” no meu celular. Eu sinceramente não consigo dizer “bom dia”. (Eu te amo.)

          Eu me botava pra dormir, imaginando que no ano de 2017, aos 20 anos (o que na minha cabeça, infelizmente, é quase como ter 89 e umas 4 doenças terminais), eu ia estar completamente independente. Independente a ponto de ajudar. Ajudar, ajudar, ajudar e ajudar. Ajudar mais, ajudar sempre, dar uma força.

          Eu estou sentada no mesmo quarto, numa poltrona inflável, pensando o que foi que eu fiz. Se fui eu quem fiz isso mesmo. Mas não adianta, eu vou me culpar de toda forma. Eu tenho que me culpar, porque eu não acredito em Deus.

          Faço psicologia, por incrível que pareça. O meu primeiro semestre foi o último de 2016. Lá eu conheci somente pessoas maravilhosas, algumas que eu já amo de verdade, outras que eu aprecio a companhia, exceto por uma professora que eu nem chego a odiar, eu só não aguentava assistir aula. Mas, se eu aguentasse uma hora, eu ia assistir uma outra aula que em muitos aspectos mudou meu jeito de ver a vida (e inclusive arriscando os próximos 6 meses pra poder repetir a dose, fazer o que, eu não possuo cerimônias que me proíbam de me viciar em nada).

          Lá eu descobri que as pessoas sonham alto. Que é normal você desejar as coisas intensamente. Eu andei tão preocupada pensando em como arranjar o maldito dinheiro pra ir na aula do dia seguinte, passei tanto tempo cozinhando meus cupcakes azuis pra vender e poder ter o maldito dinheiro pra ir na aula todo dia, que eu esqueci de sonhar, olha que clichê bem encaixado! Eu só conseguia pensar “Mas que merda, será possível que é TODO MUNDO FELIZ? Eu tô preferindo acreditar que só tem bobo alegre.”

          Um dia, numa simples conversa, me perguntaram qual era meu maior sonho. Eu tristemente só consegui pensar em dinheiro. Porque no final de semana, eu estava com vontade de relaxar. Depois disso, eu comecei a comprar qualquer coisa que me desse vontade, MAS... Obviamente agora, eu estou lembrando de cada centavo que gastei, tal qual um Tio Patinhas falido, pensando que eu poderia ter comprado os ovos que iriam me faltar hoje, o arroz que acaba essa semana, ou o garrafão de água, que acabou semana passada. A crise tá acabando comigo.

          Eu escrevi isso tudo com algumas intenções... Eu esperava sonhar de novo, esperava acreditar de novo, mas eu não consigo.
Será que eu sou uma má pessoa?





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