Tudo sobre a tal da serotonina

segunda-feira, novembro 16, 2015


Não adianta

                         Não era pra eu estar aqui. Não era mesmo. Eu não sei expressar o tamanho do não que esta frase deveria ter para chegar perto do quanto eu não deveria estar aqui. Mas eu estou infelizmente por culpa minha.

                         Eu vejo as pessoas entrando e saindo dessa sala burocrática e eu diria até leviana. Eu fico observando aqui do alto do meu banco entre as plantas, a porta de entrada do circo dos horrores que é este lugar. É uma atuação para parecer tranquilo, mas não é e nunca vai ser. Eu escuto os gritos de horror que saem ali de dentro. Tanto sangue... E para uma pessoa como eu estar fazendo essa análise emotiva, vocês podem imaginar a quantidade de jeitos que um ser humano pode entrar e sair em uma maca.

                         Uma hora aqui e você experimenta as mais diversas sensações, de solidariedade até a completa indiferença das pessoas. Posso me considerar um transeunte nas duas coisas. Ser solidário é considerado uma característica de uma pessoa boa, o que eu não me considero, mas é assim que definem. Acho que uns nascem com isso e outros não. Eu sou egoísta e isso é um fato concreto, reflete bem o motivo pelo qual me tornei uma pessoa solidária E indiferente.

                      Complicado explicar para as pessoas que você as ajuda porque quer satisfação pessoal. As pessoas aceitam isso de maneira raivosa, como se falar a verdade fosse algo ultrajante. Nós sabemos e é isso que provoca tal ira. Mas não é por isso que eu estou aqui.

                      Hoje estou somente acompanhando, mas bem que podia ser eu. Podia ser todos nós. Do alto aqui do meu banco entre as plantas deste hospital, tendo o rosto iluminado de vermelho contra a minha vontade pela chegada dos mais diversos tipos de ambulância, só me resta respirar pausadamente. Respirar e respirar, aguardar e aguardar... Não me deixar abater com as efemérides que passam ali. O cheiro de éter só deixa mais claro o que é fatal: Não adianta.

                       É como consertar a barra de uma calça gasta no seu dia a dia. Ela vai rasgar de novo e de novo, várias vezes até você se convencer que você deve deixá-la ir. Somos nós e talvez sim, talvez a realidade seja niilista demais.

                      As pessoas entram e sem o tempo todo num ritmo frenético. Pessoas entram apressadas e saem chorando dores. Elas olham para as pessoas esperando com o rosto encharcado, tentando encontrar conforto. Nós olhamos de volta com um semblante de compaixão, uma cara falsa de tristeza, a fim de fazer aquela pessoa se sentir confortável mas é tudo uma grande mentira.

                     Nós na verdade não sentimos nada. Nós não deveríamos estar ali, nós só queremos nossos cigarros acesos e a fumaça no pulmão. Essa pessoa não irá sentir-se confortável com um semblante muito menos com palavras. Ela se satisfaz com o corpo que não possui mais. Com o calor do corpo que acabara de perder. Não adianta.
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