Tudo sobre a tal da serotonina

segunda-feira, novembro 16, 2015


Duas caras

                Eu não gosto das segundas-feiras. Mas, primeiro, eu preciso explicar o motivo pelo qual amo as segundas-feiras. Acho que isso é tão contraditório que não se encaixaria numa antítese.

                 A semana toda temos uma rotina um tanto quanto rígida. Acordamos, escovamos os dentes, tomamos café ou não, independente da hora em que acordamos, começamos a fazer alguma coisa que só finda em cansaço e inevitavelmente, com a noite. Chega a noite, hora de recolher-se e assim vamos de terça a sexta. E na segunda, também, mas não da mesma forma. Sabemos disso. Segunda te deixa irritado pelo fato de ser o início.

                 Sexta-feira a noite, já estamos condicionados a estampar o sorriso no rosto e bradar: "TENHO DOIS DIAS PARA APROVEITAR!" ou "TENHO ALGUM TEMPO LIVRE PARA DESCANSAR!" e assim vamos na letargia ou alegria dos nossos fins de semana, transformando assim a rotina da semana monótona, cansativa, impregnante e indesejada. Salvo casos onde o indivíduo realmente é feliz todo dia com o que faz a ponto de ignorar o que pode fazer mal e isso é bem, bem raro.

                 Segunda, talvez, seja o único dia real. O dia que destrói a alegoria do fim de semana e cria uma ilusão de que mais uma semana acabou e mais uma semana começou. Como um rebanho de vacas representando os dias, enfileiradas no nosso calendário mental. Para alguns, isso pode representar uma coisa extremamente chata; uma vaca gorda, mugindo a cada minuto mais alto em seus ouvidos cansados. Para outras, no entanto, uma vaca bonita, daquelas vendidas a preços altos nos programas de T. Soa como um alívio do que a incerteza dos fins de semana pode trazer, um dia em que você espera ser surpreendido até o momento em que você levanta a cabeça do travesseiro e já estamos numa terça pela manhã. Surpresa esta que você não sabe bem o que é, mas esperou o fim de semana ansiosamente por ela.

                   É o início de um domingo onde as pessoas estão realmente hipnotizadas, onde não se vê ninguém na cidade após as 20 horas, mas mesmo assim está tudo aberto. Como não amar esse antagonismo? Como não odiar esse clima de eterno e monótono domingo, onde a natureza está de má vontade e as pessoas também?

                   Um dia ímpar. É aquele dia que amanhece ensolarado, está completamente lotado de coisas para fazer, mas ao cair da noite, a cidade te abraça com um feriado de ruas vazias, onde você  pode andar no meio da rua esperando por aquela chuva fininha cair e cada gotinha fazer esmorecer um pedacinho de cansaço no seu corpo. No diminutivo mesmo, porque isso acontece de forma descompassada e gentil.

                    Eu amo as segundas-feiras justo porque eu odeio as segundas-feiras. Porque é um dia normal, e eu sou uma pessoa normal, que sente a cruz da rotina e atmosfera do pesar de uma semana árdua começando. E eu amo poder sentir tudo isso, amo poder ver que é bonito ter uma percepção.
Os outros dias não são descartáveis, de maneira alguma. Cada um de nós tem um dia favorito, cada um de nós tem um tipo de sinestesia quanto aos dias da semana. Você pode gostar de um sábado ensolarado, eu posso amar uma quarta chuvosa. Você pode achar que terças-feiras são ótimas para escrever poemas, mas eu posso achar um belo dia para entrar numa depressão.

                    E é por isso que eu amo segundas-feiras. Faz com que eu me sinta, no mínimo, viva e com a capacidade de sentir, nem que seja algo que eu expresse coçando a testa e bufando a cada passo apressado na rua, sentindo o peso da mochila nas costas. E é por isso que eu odeio as segundas feiras, porque caminhar no meio da pista vazia esperando uma garoa que não cai, pra me mostrar o cansaço, me fazer sentir essa nostalgia tremenda do que o fim de semana podia ter sido e não foi... De que a semana começou, e o tempo só conta o futuro.
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