Tudo sobre a tal da serotonina

quinta-feira, outubro 30, 2014


Eu e ela.

                            Pedi a ela que repousasse na grama. Eu já não aguentava mais ter que desviar o meu olhar quando o dela encontrasse o meu. De qualquer forma, não foi por isso que eu fiz este pedido a ela. Já era tarde e ela realmente precisava dormir pelo menos por algumas horas. Eu bem sei como ela gosta do cheiro das plantas e do conforto de uma noite estrelada.
                            Como estávamos a sós, deixei ela dormindo e fui andando em direção ao lago. Sentei no chão frio de madeira, úmido da água que corre embaixo dessa ponte simples. Ao meu redor, toda a vegetação exala seu cheiro forte de orvalho, recém condensado nas pétalas e nas folhas. Os galho estalam as medidas que os pássaros voam e piam baixinho no meio da madrugada, assim como os grilos trilando por entre a grama. De repente as nuvens param de obstruir a lua e sua luz faz com que tudo ao meu redor seja prateado. As estrelas cintilam cada vez mais brilhantes, o vento cada vez mais aconchegante.
                              Acendi um cigarro, pus o casaco e fiquei pensando o porque daquela bagunça, se tudo não podia ser tão simples como aquela noite comum, isolado da cidade. Eu estava há duas horas de distância dos sinais de telefone, dos carros, da gritaria, da confusão, e ela estava lá comigo. Bem ali, deitada, dormindo de uma forma que emanava alívio. Foi realmente uma semana difícil para todos nós e eu resolvi que a traria aqui para relaxar, era seu lugar predileto. Ela não gostava que eu fumasse.
                             Pode ter sido bem egoísta da minha parte, mas eu fiquei muito feliz por ela ter me pedido ajuda, por ela ter me entregado tudo que era seu de mais antigo e desconfortável para que eu cuidasse para ela. E cuidasse dela. E foi isso que eu fiz. A ouvi, a consolei, a fiz rir e ela agradeceu cada uma dessas coisas.
                           A vida nos proporciona esses prazeres estranhos. O fato de ela precisar de mim para alguma coisa me fez sentir importante, me crescer ter uma ponta de esperança sobre nós. Mas não, não posso ser egoísta a esse ponto... Somos tão parecidos, tudo ficaria diferente. No fim da manhã que logo ia raiar, voltaríamos as nossas vidas e eu não poderia mesmo seguir com aquilo, apesar de querer muito.
                     Me perdi nos pensamentos. A pus pra dormir com a intenção de ter algo a falar sobre as estrelas, preencher o vazio de uma conversa quando palavras já não eram mais suficientes. Eu fiz isso por ela. Era essa a minha intenção, apenas... E eu sei que daqui pra frente, esse momento vai ser o que antecede toda a nossa vida daqui pra frente. Como um relógio marcando o fim dos tempos.
             
                     - Eu realmente esperei que você fosse me falar alguma coisa sobre as estrelas e toda essa porcaria de universo que só me maltrata.
                    - Eu ia, mas você acabou dormindo.
                    Não percebi que ela tinha chegado até ali. Quantas horas se passaram? Os passos dela são tão delicados que... Escutei um barulho de isqueiro e uma fumaça quente por entre todo aquele ar úmido e pesado.
                    - Mas você não fuma...
                    Ela ignorou por um momento para soltar a fumaça. Pôs os pés na água, olhou pro céu, bateu um pouco das cinzas na madeira e disse:
                    - Os momentos que antecedem certas coisas são mais importantes do que está por vir. Escuta teu silêncio.
                 
   
                         
                         
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1 comentários:

Gugu Keller disse...

Há fases em que bastam os quases.
GK

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