- Fala, ou eu atiro.
- Isso. Esse som...
- O que?
- Esse som, faz de novo.
- Isso é uma arma, cara.
- Volta aqui, põe ela aqui de volta!
O silêncio que se seguiu foi desconcertante. Mal sabia o homem que o outro queria mesmo era aquele alívio. Ele desejava aquele cano frio pressionado contra sua cabeça vazia.
Ele desejava isso.
Não sabia muito bem porque. O sangue correu quente nas veias do homem, enquanto que na deste outro, suado, ferido e amarrado, corria gelado de um jeito... reconfortante.
Ele queria muito.
- Não vou fazer isso. Olha, eu não quero te machucar, eu só quero saber o que você tem pra me contar. E você tem muitas coisas pra me contar.
- Põe a arma de volta na minha cabeça, ou eu não falo nada.
O homem ficou parado pensando o porquê desse interesse. Há dois minutos, o outro era calmo e leve como um floco de neve caindo do céu. E ele sabia que o homem tinha algo a dizer sobre aquele transtorno.
- Olha, cara, se você não falar, eu vou...
- Vai oquê? Faz logo o que você tem de fazer. Vamos, coloca essa arma de volta na minha cabeça! Você ainda quer suas informações?
Surpreendido com aquele sorriso lunático no rosto do outro, o homem por um momento pensou em se render à tentação de fazer o que o homem pedia, mas havia medo. Um medo, um único arrepio gelado na sua espinha. Seu corpo, febril de ódio e culpa por estar sentindo medo de um homem, um outro homem amarrado e fundamental para resolver seu problema, estremeceu ao olhar para a face do outro mais uma vez.
- Eu não sou um assassino.
- Mas tem o que eu quero. Você acha que é o único aqui que quer alguma coisa?
- E o que você quer?
- Sua arma na minha cabeça.
- Cara, qual é o seu problema? Eu não sou um assassino!
O outro estava entrando na mente do homem. Não deveria deixar... Ele não pode...
- Por Deus, qual é o seu problema?
- Adrenalina. Vamos, anda logo põe essa arma na minha cabeça e puxa esse gatilho. Eu sei que você quer. Eu sei o que você quer.
O que se seguiu foi uma risada.Olhos incerto, sem direção. Os olhos do homem pesaram, a vista escureceu. Ele não tinha como saber.
O outro não tinha como saber.
- Como você...
- Ah, você nunca viu uma pessoa como eu? Você nunca viu uma cabeça aberta e o barulho que faz?
O silêncio. Esse silêncio que conhecia há muito. Aquela sensação, aquele sangue quente correndo. Como orvalho no rosto. Foi rápido. As paredes agora parecem mais bonitas... Pelo menos, aos olhos do outro.





0 comentários:
Postar um comentário