Ela tinha cara de má. Expressão de quem tem o sangue pulsando de violência e revolta, o que era muitíssimo estranho para uma menina daquela altura. O jeito dela, não dizia nada daquela expressão. Parecia alguém doce, companheira e também muito divertida pelas caras e bocas que fazia enquanto cantava discretamente.
A música! O fato dos seus fones de ouvido sempre estarem no volume mais alto, fazendo assim com que os mais próximos escutassem também a sua música, me deixou abismado ao perceber o quão eclética ela era.
Os dias iam passando e minha rotina tornava-se a mesma: Esperar a menina doce dos olhos de fogo chegar e observá-la gelar as expressões de curiosidade ao seu redor. Comigo, claro, não foi diferente.
Quando ela descia da condução para esperar a condução final até sua casa, eu já estava lá, olhando apressadamente ao meu redor para ver se a identificava no meio da multidão. Quando finalmente a enxergava, com certeza ela percebia a minha inquietação.
Por incrível que pareça, ela demonstrava interesse em mim. Mais pelo fato de talvez termos a mesma idade. Ou talvez por conta da minha cara de bobo, sem querer me render a seu olhar reprovador.
Intimidava-me, claro. Mas eu tinha cada dia mais de parar de espioná-la de longe e perguntar ao menos seu nome...
Pois bem. Hoje creio que ela se atrasou. Eu já estava prestes a pegar a condução sem vê-la, mas ela chegou. Esperei a próxima ao seu lado e notei que estava chorando, mas o motivo não era nada que se pudesse ler em sua face, já triste e pensativa.
Ela segurava o celular com muito pesar, como se quisesse forças para ligar ou talvez atendê-lo. Os fones não faziam muitos chiados, nada de heavy metal nessa situação. Já não cantava mais discretamente sem que lágrimas pesadas escorressem. Era como se aquilo tudo a lembrasse coisas boas que ela não queria lembrar. Devia ser esse o motivo do estranho e discreto sorriso que dava quando fechava os olhos.
Dor física? Não, ela parecida corada. Eu fiquei sem reação, eu só pensava em ajudá-la... A garota parecia estar entrando em um conflito interno no qual tinha que decidir entre ela mesma somente e ela e o mundo exterior.
Subimos na condução vaga e sentei-me ao seu lado. Não parecia se importar com a minha face indecifrável de total confusão sem saber o que dizer para reconfortá-la. Mas eu tinha que fazer aquilo
Ela fechou seus olhos mareados e encostou a cabeça no assento. Fiquei imóvel, tranquei a respiração e perguntei se estava tudo bem com ela. Ela abriu os olhos, aqueles olhos de fogo que estranhamente me deixava alegre. Ficou em posição normal e olhou pra mim assustada.
A surpresa dela me fez reclinar e crer que havia feito algo de errado, mas ela consentiu com a cabeça, enxugou as lágrimas e voltou-se para frente. Pegou na minha mão e agradeceu por eu ter me preocupado com ela pelo menos por cinco segundos. Mal sabe ela...
No outro dia, não estava mais lá. Nunca mais lá. Não ouvi mais sua voz. Não vi mais seu rosto meigo estranhamente sombrio. Nada mais de olhares de fogo, espalhando o gelo. Mas eu também nunca, nunca vou esquecer aquilo.





0 comentários:
Postar um comentário